Buscar

As cores do ano 2021 na arte sacra

Todos os anos, há mais de duas décadas, o instituto Pantone Color seleciona a cor do ano. Essa escolha é determinada a partir de estudos de tendências, psicologia e consultoria que direcionam especialistas a concluirem de que forma os movimentos de diversos segmentos tendem a se manifestar visualmente. A decisão tem impacto em todos os setores de negócios - do entretenimento ao turismo.


Para este ano, a Pantone combinou duas cores para chegar à aguardada “cor do ano”: PANTONE 17-5104 Ultimate Gray + PANTONE 13-0647 Illuminating. Um tom de cinza e um tom de amarelo, cores que carregam mensagens muito diferentes e, ao mesmo tempo, complementares.




Primeiramente, a dupla reflete o resultado de um 2020 tão cheio de obstáculos e desafios, trazendo o espírito que promete conduzir 2021: força e solidez em busca de momentos de luz, ensolarados. Paralelo ao contraponto, há uma união perfeita. O cinza é a base firme e estável que dá suporte a sentimentos de esperança e energia. Cinza é cor das sombras, mas não existem sombras sem uma fonte de luz. Em outra interpretação, o amarelo traduz a necessidade de aparecer, inovar, cintilar - mas ainda mantendo o respeito pelas tradições, pela sabedoria, pela experiência simbolizadas pelo cinza.


Na arte sacra, a cor do ano promete se manifestar reforçando o cinza e o dourado como opções clássicas do desenvolvimento das peças.


Cinzas e cinzas quentes na arte


O cinza, na tradução de símbolo de resiliência, confirma a importância do respeito às tradições, à passagem do tempo, à origem das imagens. Na perspectiva de restauração, essa é uma mensagem muito importante, pois resgata a essência dessa manifestação artística - preservação da cultura e da arte. De modo geral, o cinza equilibra a cartela de cores da peça: traz sobriedade, com a dose do preto, mas também calma, graças ao branco. Ele não existe sem um, ou outro.




Durante o Renascimento e o Barroco, o cinza tornou-se elemento de harmonia, já que o preto passou a ser a cor mais popular entre a nobreza, especialmente na Itália, na França e na Espanha. O cinza era a cor complementar a ele.

Entre artistas, o cinza era visto como ótima cor de fundo para tons de pele. O pintor El Greco utilizou a opção em muitas obras para destacar rostos e fantasias. Retratos do pintor holandês Rembrandt Van Rijn eram compostos maajoritariamente por cinzas quentes que ele mesmo desenvolvia com pigmentos pretos de carvão ou ossos de animais queimados, misturados com branco de chumbo ou branco feito de cal. Como no retrato “Margaretha de Geer”, Rijn criou cinzas a partir de camadas de marrom escuro, terra laranja, vermelha e amarela, marfim preto e, finalmente, chumbo branco - adicionando mistura de azul, ocre vermelho e lago amarelo. Esses riquíssimos cinzas e castanhos quentes eram usados para dar ênfase à luz dourada nos rostos das pinturas.



Retrato Margaretha de Geer, de Rembrandt Van Rijn. Foto: The National Gallery, UK.

Sua popularidade também se deu graças a uma técnica de pintura à óleo denominada grisaille, a partir da qual a imagem era composta por cinza e branco como base anterior às cores, incluídas em seguida. Essa técnica permitiu que efeitos sombreados fossem desenvolvidos, utilizando a camada de cinza inferior - que, muitas vezes, também era finalizada sem sobreposições de cor, resultando em um visual de pedra esculpida. Cinza também era considerada a cor de fundo ideal para o dourado.




Na teoria das cores, a saturação, ou seja, pureza da cor, é definida pela quantidade de cinza que a cor contém - o que é muito útil no desenvolvimento de peças que exigem mais ou menos sobriedade. Dentro da classificação de temperatura da teoria, o cinza - assim como o marrom - é tido como cor neutra. Assim, seu uso associado a cores quentes e frias dá origem a opções mais equilibradas para a pintura de rostos e indumentárias - como cinza-azulado, cinza-esverdeado e cinza-avermelhado. Também na arte sacra, o cinza é associado ao prateado.


Dourado: o amarelo na arte sacra


Na arte sacra, o amarelo se traduz, na maioria das vezes, em dourado. A folheação a ouro é um dos processos mais conhecidos, etapa fundamental da policromia - uma das técnicas mais tradicionais da arte sacra e especialidade do Cristina Martins Ateliê.




Quando se trata de douramento, são inúmeras as possibilidades de técnicas: douramento à base de água, de argila, douramento químico e a frio são algumas delas. Na arte sacra, tratamos do douramento mecânico, série de etapas nas quais a folha de ouro é preparada para ser “colada” em variadas superfícies. Para que isso ocorra, artistas lançam mão de procedimentos como polimento e douração de água e de óleo.

Cobrir uma peça com folhas de ouro é um dos métodos mais simples e antigos da história - sendo mencionado, inclusive, no Antigo Testamento, onde o processo é citado com a inclusão de uma fina camada de betume. Mas, claro, houve diversas evoluções. Enquanto hoje a folha de ouro é um material finíssimo - mais fino que o papel comum e, quando na luz, chega a ser semitransparente -, no passado, já chegou a ser cerca de dez vezes mais espessa.





No passado, ainda, a douração de telas ou madeira envolvia um revestimento prévio de gesso, seguido por aplicação de cola de pele de coelho e água ou óleo de linhaça com litarga. Outra mistura comum para aderência da folha era clara de ovo grosseiramente batida, goma e/ou fuste armênio. Muitos também usavam o ouro como pigmento para a criação de uma tinta, moendo-o e misturando com algum aglutinante - como a goma arábica. Um fato interessante é que muitos artistas aqueciam a peça depois de folhear ou pintar com o ouro, derretendo-o leve e sutilmente para que a camada ficasse mais uniforme. Para madeira, couro, páginas de pergaminhos e materiais com bordas douradas, essas foram as principais alternativas de douramento que se mantiveram.


Dourado e ornamentação na arte sacra


O dourado é encontrado, principalmente, na indumentária das imagens sacras, para compor detalhes dos tecidos. O barroco brasileiro reúne uma vasta seleção de técnicas tradicionais nesse sentido - muitas, inclusive, utilizadas pelo Cristina Martins Ateliê. Para 2021, a previsão é de que essas técnicas sejam ainda mais exploradas no segmento.



Sant´Ana Mestra - exclusividade Cristina Martins Ateliê

Esgrafito - nessa técnica, a folha de ouro é aplicada e brunida e, em seguida, a superfície é pintada. Na fase de secagem, parte da camada colorida são removidas com uma ferramenta específica, formando desenhos e revelando a camada dourada inferior.


Pintura a pincel - pode ser utilizada sobre áreas coloridas do esgrafito, para destacar os tons, ou pode imitar o próprio esgrafito.


Punção - realizada após o douramento, com peças de metal de diversos formatos e tamanhos, formando texturas na peça com furos. Seus efeitos aparecem em túnicas, mantos, contornando desenhos ou preenchendo um grande espaço.


Entalhe - feitas antes da douração para dar destaque a desenhos. Também conhecido como ranhuras ou incisões.


Pastiglia - a área a ser dourada era coberta por pintores com uma camada de argila, antes da aplicação da folha de ouro. O desenho de baixo relevo era desenvolvido na superfície a ser dourada ou pintada. A cor quente dessa base dava vida ao dourado. Muito utilizada na Itália, durante o Renascimento.


Veladuras - camadas finas de tinta transparente e colorida aplicadas sobre camadas coloridas e secas ou sobre folhas de ouro e prata. O objetivo é promover uma sutil modificação na cor. Normalmente, é realizada com tinta a óleo ou a têmpera.



No nosso canal do Youtube, reunimos vídeos e dicas exclusivas sobre desenvolvimento de arte sacra e restauração.

No nosso Instagram e na nossa página do Facebook, é possível acompanhar mais conteúdos sobre o assunto, além de estudos sobre carnação e policromia.



Fontes: Pantone, Hisour, Curso "Expressões na Arte Sacra" no Museu de Arte Sacra de SP, por Silvana Borges

33 visualizações
  • Facebook
  • Instagram
  • Youtube
  • Pinterest

Telefone:

(32) 98494-4655

Juiz de Fora - Minas Gerais